Uma prática (que alguns consideram uma praga) nascida nos Estados Unidos se expande no Brasil: a do script doctor, o doutor do script.
São escritores desocupados, aposentados ou em plena atividade, estudantes, críticos, pensadores e acadêmicos que se oferecem para analisar roteiros, peças de teatro e livros ainda no forno, escrever relatórios e organizar encontros ao vivo com os autores.
Como são pagos, costumam mostrar serviço apontando falhas e aventando muitos palpites, cada um com a sua noção do que é certo ou errado, bom ou ruim.
Escrever um roteiro é uma atividade complexa, pois no papel não se percebe, na maioria das vezes, o que a imagem dirá - o que é a essência do cinema e o diferencia de outras linguagens. Não é o forte do cinema brasileiro.
Aqui ainda faltam boas escolas e não pagam bem os roteiristas. A tevê rouba os talentos, e não se deve esquecer que o Cinema Novo, que influenciou muitos, priorizava as idéias, não o script.Há muito dinheiro envolvido na industriado cinema. Um erro pode ser fatal para investidores. Se bem que, no caso brasileiro, o prejuízo é sanado pelo montante arrecadado por leis de (des)incentivo.
Agora, pense rápido: qual profissão você pode sugerir para o seu bacuri, a do cara que fica de um a dois anos debruçado numa obra criando diálogos, personagens, cenas, conflitos e imagens que contém uma história envolvente, ou a do cara que lê a mesma em duas horas e dá palpites?
A maioria dos escritores não gosta de se submeter a opiniões alheias. Faz sentido outros sobreporem seus anseios na obra de um cara que se acha Deus? Perde-se a essência da arte, que é o desabafo pessoal, a loucura confessada, o segredo contado.
Ou você acha que o Senhor dos Céus ficaria feliz de, no sétimo dia, ter que se reunir com uns neguinhos sugerindo que o jacaré tivesse tromba, o elefante, mais pescoço, o suíço, samba no pé, e o brasileiro fosse bamba no esqui?
Imagina o que os primeiros script doctors escreveram no passado sobre alguns clássicos:
'Caro senhor Shakespeare, fui contratado para ler a sua nova empreitada, Hamlet. Há ótimas frases que, com certeza, ficarão para a eternidade. Mas vejo problemas na trama. Primeiro, esse negócio de fantasma de pai logo no começo não cola. O filho não poderia encontrar uma carta? Segundo, o protagonista não fica com ninguém? Terceiro, e mais importante. Como o senhor espera fazer sucesso, se na sua peça morre todo mundo?
''Senhor Euclides da Cunha. Parabéns pela extensa obra, mas não seria melhor começá-la já com a ação? As descrições sobre a terra são sonolentas e afugentam o leitor. Outra sugestão. O senhor se atém pouco à cena em que Conselheiro descobre o adultério, o que, pelo visto, é o ponto de virada da trama. Por que não estender esta parte? Poderia até ser um novo capítulo, e seu livro seria dividido em: A Luta, A Terra, O Homem e O Corno. Ou A Vaca.
''Querido senhor Dostoievski. Admiro a coragem de escrever um livro tão pessimista como Crime e Castigo. Mas gostaria de lembrá-lo que os leitores buscam na literatura um conforto. Especialmente nossos camaradas russos, que chegam em casa cansados e congelados. Não seria melhor o senhor escrever um livro em que o bem vencesse o mal?
''Caro senhor Kafka, sei dos seus tormentos afetivos e problemas de relacionamento com o seu pai, acho interessante os seus trabalhos sobre a falta de sentido da condição humana, mas não faz sentido escrever um livro cujo protagonista acorda uma barata, inseto tão repugnante. Caso o senhor não queira continuar um ilustre desconhecido, não seria melhor ele acordar um pardal que canta?
''Senhor Guimarães Rosa, li e reli a sua obra, ela é interessante, mas a linguagem e a pontuação... Muita maluquice. E, depois, não sabemos como reagiria o leitor com o caso homossexual reprimido entre dois vaqueiros mineiros. Se ainda fossem gaúchos...
''Machado, querido, não entendi a expressão 'olhos de ressaca' para designar a sua personagem feminina do novo livro. Ela bebe? Outra observação. Não faz sentido o senhor publicar uma obra como Dom Casmurro, sem que saibamos se, afinal, houve traição ou não. E mais. Para que escrever uma obra chamada Quincas Borba sobre um personagem que não se chama Quincas Borba?
"Caro Leminski, sem dúvida nenhuma é bastante notável seu profundo conhecimento nas mais diversas línguas e também, na filosofia, história,literatura e artes em geral. Mas precisava por tudo isso de uma maneira tão bizarra como no Catatau? Principalmente se tratando de sua estréia. Tudo em um único parágrafo sem linearidade e pontuação? Tenha dó! Descartes nos trópicos? E personagens que mudam de nome no decorrer da história? Quanta maluquice! Sinceramente, aconselho a se livrar de seus costumes com o álcool e procurar outro ramo. Quem sabe a publicidade?
27.6.09
26.6.09
Carnaval em Curitiba (da coletânea Feriados em dias Inúteis)
Passei pelo carnaval como se ele não existisse. Nunca me interessei. Costumo brincar que não gosto de ver as pessoas felizes. É claro que só tô tirando uma. Acho bacana quando as pessoas estão realmente felizes. Mas não é o caso do Carnaval, e tá todo mundo ligado no que tô falando, não preciso explicar. Não gosto de samba enredo, não gosto de carnaval, sou mesmo um chato, mas gosto da cidade parcialmente vazia, mesmo que isso nos custe o fechamento de alguns bares queridos que nos deixam orfãos por essas noites. Até os Bares do Largo fecharam . Coloquei algumas músicas novas no meu MP5 e fui de ônibus até o Holmes . O bacana de lá quando o bar não tá muito cheio é que tem espaço no balcão. Então eu encosto lá e fico bebendo tranquilo e sozinho. Alguns amigos chegam e fico conversando com eles. Fiquei um bom tempo sozinho e os amigos desgarrados foram chegando. Tava todo mundo com um ar meio melancólico como se a gente soubesse da estranha felicidade que as pessoas estavam sentindo em outros lugares não muito longe dali. Aí entrou no bar um cachorro perdido. Era um pastor alemão muito bonito e ele parecia perdido. Mas devia morar ali perto. Deve ter fugido do barulho de algum tamborim e foi se refugiar no bar que estava tocando Bob Dylan. Um cara aparentemente apaixonado por cachorros ficou muito preocupado. Mas com certeza ele devia saber o caminho de volta pra casa. Só não tava interessado no momento. Afinal todos sabem que a audição dos cachorros é muito mais apurada que a nossa. Se o cachorro tem bom gosto musical, então fudeu. Quando o Holmes fechou, fizemos a tour dos bares que ainda estavam abertos. Agora tava a fim de beber e conversar com estranhos. Nunca me perturbo com isso. Nem tô bebendo muito. Aliás ando bebendo muito pouco, por conta da recuperação do meu estômago. Ontem foram só duas caixinhas. Mas não consigo fugir da noite. Posso ficar no bar a noite toda bebendo suco de limão. Mas a noite é fundamental pra mim. Só isso. Já na madrugada de quarta-feira de cinzas. Na noite melancólica de Curitiba ,apenas amigos conversando. Caras que não conseguem simplesmente voltar pra casa e ficar sossegados, mas ao mesmo tempo também não conseguem disfarçar a felicidade pulando num baile de carnaval. Isso não nos torna melhores nem piores do que ninguém. Mas apenas nos torna cúmplices de algo que nem conseguimos definir. Como no belo poema que o Mauricio Arruda Mendonça escreveu para Augusto Silva ..." Quem vai notar / nossa passagem por aqui? / Quem vai falar de nós se não estamos nem aí?
Preciso ligar pra casa...( da coletânea Feriados em dias Inúteis)
Pensei isso enquanto olhava no relógio as 7:32 da manhã no domingo de páscoa. Eu ainda deitado , levemente ressaqueado da noite de anterior . Larguei o relógio no canto da cama e tentei dormir novamente mas sem sucesso. E uma coisa não saia da minha cabeça: "puta que pariu..é páscoa....tenho que dar um alô pra família." E esses pensamentos de distância sempre me incomodam de alguma forma. Virei pro outro lado da cama , onde o sol batia nas costas e não direto nos olhos , e assim fiquei um bom tempo , sentido apenas a coceira das picadas de pernilongos que me visitaram durante a noite e se entorpeceram com meu sangue de segunda misturado com vinho barato . E que também me incomodavam tanto quanto a necessidade de ligar pra família e dizer q esta tudo bem. Me levantei umas duas horas depois , fiz uma garrafa de café e fiquei na sacada da cozinha olhando a paisagem que sempre muda pouco da noite pro dia ,e e pensei : “ porra , foi hoje que o cara ressucitou”. ( pensei isso ao ver um defunto sendo colocado dentro do caixão , pois a sacada da minha cozinha dá para os fundos do necrotério municipal) Peguei mais café , e fiquei alguns minutos respirando o ar puro da manhã , e deixando que a umidade e o calor matutino me fizessem transpirar um pouco enquanto eu pensava no que iria fazer durante o dia. Pensei , porém não fiz muita coisa . Fui ao mercado comprei um jornal e algumas cervejas ( o suficiente para decretar o fim do resto do meu domingo de páscoa) . Cheguei em casa , os amigos com um pequeno convite ao suicídio gradual. Um bom e velho Domec. E eles sabem que eu caio como um pato ingênuo na armadilha. Mas eles só queriam ficar ali sentados , bebendo e falando de mulheres e futebol como loucos , enquato eu ouvindo um Jazz, só esperava o tempo passar. E mais nada.
Para os inocentes que acreditam em Deuses. Agradeçam.
Os fãs da Beat Generation, tiveram de esperar décadas até ver publicado este romance, escrito a quatro mãos, em 1945, pelos então ainda "novatos" Jack Kerouac e William Burroughs. A divertida trama juvenil do romance , que gira em torno de amizade, poesia e experiências com sexo e drogas, acaba se revelando a anatomina de uma tragédia passional ocorrida de fato em Nova York, em 1944, as margens do rio Hudson: o assassinato de David Kammerer pelo adolescente Lucien Carr, ambos amigos dos dois escritores. Agora, com todos os implicados falecidos, o livro pôde finalmente vir a luz, com cada capítulo escrito ora escrito por Burroughs, ora por Kerouac.
E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques (título também tirado de um fato noticiado na época: o incêndio de um circo na região) mostra a potência narrativa desses mestres da prosa espontânea, neste que foi considerado por muitos críticos como o último movimento de literatura de vanguarda da terra do Tio Sam.
...Terça de manhã todo mundo estava de ressaca de Pernod.
Barbara foi para sua aula às nove e Janie dormiu até as onze, quando Phil levantou do sofá e nos acordou. Estava um dia quente pra cachorro.
Janie foi até a cozinha e esquentou sopa para todos. Philip pegou outra daquelas calças de algodão e uma camisa cáqui da sacola de marinheiro e vestiu. Nós dois estávamos vestidos iguaizinhos, só que as minhas roupas eram mais velhas e sujas.
"Olhe este lugar", falei. "Que diabos aconteceu ontem a noite?"
(trecho do livro)
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