10.12.10

....

hoje estou sóbrio e vivo
vivo como as aves que fogem do frio
começo amar a realidade como nunca amei
e me declino sobre a vida como nunca me inclinei a coisa alguma
hoje
por algum motivo, que ainda nao sei qual é
me sinto sóbrio e vivo

27.7.10

a verdadeira poesia

para a verdadeira poesia
não interessa o belo o sábio e o forte
para verdadeira poesia
interessante é a bosta
os beijos roubados com olhares tímidos
não valem absolutamente nada
doces lábios e doces palavras
não tem valor algum para a verdadeira poesia
o que tem valor real para um poeta maldito como eu
são os risos banguelas e com mau hálito
risos gratuitos de maltrapilhos pedindo esmola
que exibem suas chagas como troféus
isso sim vale para o verddadeiro poeta
o perfume da musa
é o suor dessa gente esquecida
a inenarrável beleza do crepúsculo
é a mesma falta de assunto de um fim de tarde qualquer
cortador de cana e bebedor de cachaça
meus suspiros não são de orgasmos inatingíveis
são de cansaço e de dor
meu carinho é quente e rústico como os dos cavalos na cocheira
para mim o verdadeiro poeta é aquele que sofre
que expõe sua ferida ao sopro leve do vento
que dorme apenas para se livrar do sofrimento diário
e que nem em sonho encontra sossego

esse sou eu

interesse a quem interessar

11.7.10

....

...a felicidade vem quando estou dormindo

ninguém interrompe esse doce momento,

essa espécie de transfusão

do desejo para a carne,

o gesto e a palavra palavra juntos,

sem qualquer intermediário

meu rito, minha forma de ser

celebro o que é efêmero e imortal

incontrolável instante

a palavra em sonho é minha verdade absoluta,

minha ferida exposta

sem sopro

sem forma

sem tradução

4.7.10

...

Sou lama sou caos
lamento de Josué na poesia de Leminski
sou o desterro
o erro em carne viva
leite de caranguejo na barriga vazia
tremor de fome
soluço no choro
o silêncio da fala
sou suor de Joaquin Nabuco
negro índio polaco santo
sou o sal nas fotografias de Verger
criança de domingo
poeta de buteco
escritor de guardanapo
a beleza que o olho rejeita
corte no pescoço de lampião
mordida de cobra
sou frase esquecida
pintada em parachoque de caminhão
alma errante febril doente
paulada em cachorro louco
chute no cu de mendigo
sou porra nenhuma
memória esquecida
e vontade de ser
a história que está por vir

29.6.10

...da primeira vez

A primeira vez que entendi da vida
o seu sentido
foi quando criança
furei os olhos de um gato
e ele continuou vivo e
nunca mais teve medo de cães,
e os cães deixaram de fazer parte de seus temores

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e existentes apesar da aparente ausência
que o que realmente existe, é aquilo que desejamos que exista

(...)

A segunda vez que entendi da vida o seu sentido
foi quando, já adulto, me arrancaram o coração e me apunhalaram sete vezes
e sangrando tive que seguir em frente

De lá pra cá
aprendi a achar, no escuro e na dor, aconchego
mesmo sendo capaz de decifrar mensagens
em nuvens,
apreciar um dia de sol em pleno inverno
ou se emocionar com um riso sincero de uma criança...

Sexta Feira a Noite

Sexta feira a noite
os homens acariciam o clitóris das
esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio, pinto e raiva.
O mesmo tédio e raiva com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens roncão e tem pesadelos
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
sonhando com o príncipe encantado
ou pelo menos um gesto de carinho na manhã seguinte

6.6.10

Quase Haikai

Geou de manhã

Sabiá congelado esquenta o dia cantando





Menina na janela

esquenta meu coração sorrindo